Para encerrar o quadrimestre, foi montada uma bandeira reunindo todas as particularidades do grupo. O resultado foi uma arte muito especial, feita por Emille Rezende, e um texto lindíssimo produzido por Alexandre Fernandes.
"Em tempos de “crise de representação” e “crise do sujeito”, perguntaríamos: o que representa o sujeito? Qual a sua bandeira?
Todo o movimento de junho de 2013 ainda ecoa: o que querem os manifestantes? Quais seus interesses? Quem são eles? Quais suas cores? Qual sua bandeira?
Bandeiras representam o sujeito. Sempre no plural, portanto, bandeiras. Sujeitos plurais como a diversidade. Sujeitos e bandeiras, com um temível “s” disseminante. Sujeitos dentro de sujeitos. Bandeiras dentro de bandeiras. Como Minas, ora. Muitas há dentro das gerais, como rios dentro do mar na noite veloz.
Plurais na diferença, nunca se fixam. Movimentam-se. Sua ordem não é estática. São performáticos/as. Para frente e para trás, para os lados, para cima e para baixo. Haja vento, haja mar, haja onda.
Nem tanto para frente, nem para trás, nem para o lado de um Pai a quem deva retornar. Nada de origem nem metafísicas que rejeitem o inebriante infinito e agonia da aporia: de onde veio, para onde vai?
Longe de Karl Marx, próximas de Stuart Hall, bandeiras balançam aos ventos da alteridade: somos estudantes e trabalhadores. Mas também burgueses. Mulheres e homens. Héteros e negros. Homoafetivos e negros. Negras e brancas. Brancos e indígenas e não-brancos e amantes da natureza. Policiais e estudantes. Estudantes policiais e estudantes detidos pela polícia durante manifestações em Santa Cruz Cabrália porque empunhavam a bandeira do passe livre. Mas, não, não é só por 0,20 centavos. Bandeiras tremulando ao vento e logo se vê: somos mais. Somados somos mais e a conta não se resolve na linearidade matemática nem no raciocínio lógico computacional binário.
Há comandos capazes de conter bandeiras e sujeitos? “Bugs” se dão aos montes tanto quanto sujeitos e bandeiras evocam estudantes (e) apaixonados pelo mar, pelas tartarugas, pelas ondas. Ondas do feminismo, ondas de Iemanjá e de Netuno, ondas de lutas contra a fome, contra a miséria e toda a forma de exclusão.
Onda, espiral, flor de lótus, águia, tartaruga, cores, muitas cores: símbolos. Símbolos movimentam regras. Eis o paradoxo. Símbolos “movimentam” “regras”. Todo paradoxo não é um bug?
Símbolos instituem regras, trocas sociais, perfis. Símbolos, perfis, faces e books. Estão lá os símbolos e os “selfs”. Falam de nós, falam conosco, falam por nós, do nosso tempo, da nossa passagem, da viagem pelo tempo.
O tempo e o relógio. O tempo e o vento e as bandeiras. Que nos contam? “O tempo anda passando a mão em mim”, diria Viviane Mosé. Tempo é um senhor tão bonito...
Oração ao Tempo. Resposta ao Tempo. Tic, tac. “Batidas na porta da frente é o tempo, eu bebo um pouquinho pra ter argumento, mas fico sem jeito, calado, ele ri, ele zomba do quanto eu chorei, porque sabe passar e eu não sei”. Queremos ficar, permanecer, eternos como Aquiles. Fazemos bandeiras, lutamos, vivemos, morremos.
O Tempo é o entre-lugar. Está e não está. É e não o é. Um breve sinal entre o Nada. Nada/Vida/Nada. O mais são bandeiras e sujeitos que fazem a existência: Cristo, Buda, Gandhi, Madre Teresa, Oxum, Luther King. Fazem história (e direito, e biologia marinha, e artes, e medicina, e religião, e), produzem símbolos.
Símbolos são textos. Marcas. Marcam o corpo. Estão no corpo “feito tatuagem pra nos dar coragem quando a noite vem”. Uma tartaruga, uma borboleta, uma rosa, um coração. Em sânscrito, em nagô, em brasileiro, num brasileiro. Tatoos, tartarugas, ondas e borboletas numa brasileira linda de Caraíva ou na negra alta e magra de Coroa Vermelha a dizer em alto e bom som: não economize na tinta, sou negra.
Símbolos dão continuidade a um grupo. Imantam, unem, congregam. Unem na diversidade. O símbolo é a inteireza da diversidade: a unimultiplicidade. Zelar por símbolos (inclusive o de outros grupos) é ética que cuida da vida, das pessoas, dos seus interesses, de suas tradições. A bandeira de todo grupo deveria ser zelar pelos seus símbolos e proteger o dos outros grupos.
O símbolo é, pois, uma “filosofia”. Metáfora que responde perguntando. Nunca se esgota. Responde e mantém a pergunta. Inter-age. Devagar como o caracol sobe nas árvores, faz seu caminho. E lá chega. Onde? No infinito. Devagar como a tartaruga, movimenta-se, encanta. Como a águia, voa rápido e alto. Será o condor de Castro Alves, tão admirado por Jorge Amado? Nunca se saberá ao certo porque na fusão de cores, a lógica se perde, se confunde e balança, trêmula e tremula como toda a bandeira. Resposta à pergunta, “quem são vocês?”: a bandeira."
Portfólio - Turma 1 - Gabriela Sales Moreira
A criação do blog foi proposta por professores da UFSB, com o intuito de obter relatos e impressões dos discentes acerca do que tem sido vivenciado no componente curricular "Fórum Interdisciplinar: Experiência do Sensível".
domingo, 7 de dezembro de 2014
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Novas formas de sentir o mundo
Somos
conscientes da necessidade de mudanças, porém, ao nos atentarmos constantemente
aos nossos anseios efêmeros, perdemos a sensibilidade de entender que o
conserto para as falhas existentes no mundo também mudam. Por isso nos sentimos
tão desconfortáveis e injustiçados diante de um novo sistema que requer um
pensamento aberto, e um posicionamento capaz de lidar com novas propostas.
Tememos não nos reconhecer durante o processo de modificação, ou perdermos os
holofotes que nos cegam, e nos levam a acreditar que o problema não é tão
nosso. É como se estivéssemos resistindo ao recurso que temos para protagonizar
o crescimento conjunto da sociedade. Assim, experiências envolvendo o sensível
comumente nos levam além de nossas zonas de conforto. Perceber o mundo de
maneira diferente mexe com ideias objetivas que já foram reproduzidas tantas
vezes, a ponto de beirarmos acreditar que sempre foram nossas. Por isso, o aproveitamento
da interdisciplinaridade desse componente tão inovador, requer
uma rendição a possibilidade de se identificar com formas inusitadas de
expressão e conhecimento. Tem sido, acima das críticas existentes, interessante
desaprender conceitos para moldar saberes. E acredito que com o aprimoramento
(e reconhecimento) da função desse novo espaço de discussão que nos é
oferecido, nosso campo de visão se alargará tanto quanto o nosso potencial de
reinventar a composição ultrapassada do nosso cenário social.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Paisagem sonora
Evelyn Glennie: How to truly listen
"O conceito de Paisagem Sonora
(soundscape, no original) diz que "paisagem sonora é um som ou uma
combinação de sons que vem ou surge de um ambiente imersivo¹." O termo soundscape foi
cunhado pelo compositor e ambientalista canadense R. Murray Schafer, que em seu
livro The Tuning Of The World, de 1977 (publicado no Brasil em 1997 pela
Editora Unesp com o título A Afinação do Mundo), indica três elementos
principais na paisagem sonora: sons fundamentais, sinais e marcas sonoras.
Estes três elementos são definidos por Schafer da seguinte forma:
Os sons
fundamentais de uma paisagem são os sons criados por sua geografia e clima:
água, vento, planícies, pássaros, insetos e animais. Muitos desses sons podem
encerrar um significado arquétipo, isto é, podem ter-se imprimido tão
profundamente nas pessoas que os ouvem que a vida sem eles seria sentida como
um claro empobrecimento. Podem mesmo afetar o comportamento e o estilo de vida
de uma sociedade. Os sinais são sons destacados, ouvidos conscientemente.
Qualquer som pode ser ouvido conscientemente e, desse modo, qualquer som pode
tornar-se uma figura ou sinal. Não raro os sinais sonoros podem ser organizados
dentro de códigos bastante elaborados, que permitem mensagens de considerável
complexidade a serem transmitidas àqueles que podem interpretá-las. É o caso,
por exemplo, da cor de chasse (trompa de caça), ou dos apitos de trem
ou navio. O termo marca sonora deriva de marco e se refere a um som da
comunidade que seja único ou que possua determinadas qualidades que o tornem
especialmente significativo ou notado pelo povo daquele lugar. Uma vez
identificada a marca sonora, é necessário protegê-la porquê as marcas sonoras
tornam única a vida acústica da comunidade.”
Devido a um ‘novo’ mundo de sons, ruídos e
silêncios, outras atitudes de escuta se constituem, lançando compositores e
ouvintes em encontros inusitados. Objetivando um entendimento acerca deste
mundo, foram solicitadas uma série de atividades, envolvendo desde a captação
de sons ambientes, à reflexão da nossa relação com os ruídos que nos cercam.
Além disso, pudemos fazer parte de um momento de composição musical, em que reunimos
a musicalidade emitida por animais de nossa escolha, e montamos um coro.
Essa
proposta, cuja relevância, a princípio, não nos pareceu muito clara, se mostrou
um interessante exercício de nossa percepção diante de uma paisagem que se
compõe de forma sutil. Mas que, por nem sempre sabermos utilizá-la, se torna
hostil, e gera diversos transtornos que contribuem para a intolerância, a
irritabilidade e outros males provenientes do contato diário com níveis altos
de decibéis.
Portanto,
ao discutirmos tal paisagem em todos os seus aspectos, podemos desenvolver
maneiras mais funcionais de apreciação da variada “natureza sonora” que nos
cerca, bem como desconstruir pensamentos ultrapassados, que classificam a
produção de sons como algo estritamente ligado à capacidade de escutá-los.
Quando, na verdade, e à exemplo das composições de Evelyn Gleenie (artista com
deficiência auditiva), a musicalidade está diretamente ligada ao modo sensível
com o qual tocamos o mundo.
Fontes: http://migre.me/cmQeY
domingo, 23 de novembro de 2014
Folhas ao vento
"De repente um milagre, uma surpresa
Cai a chuva benéfica e divina
Quem lhe diz, quem lhe mostra, quem lhe ensina?
Só pode ser o autor da natureza
Quem pensar destruir-lhe a fortaleza
Perderá de uma vez toda a esperança
(...)
A planta firmada no junquilho
Begônia, tulipa, margarida
(...)
As flores gentis com seus narcóticos
As ervas que dão antibióticos
A mudança constante da maré"
(Natureza - Xangai)
As folhas, além das propriedades biológicas que possuem, carregam consigo a associação à
um local, um efeito curativo, ou sensação provocada.
No que tange seu
efeito medicinal, três podem ser mencionadas:
Boldo
Tem um gosto
muito forte e amargo, que pode afastar aqueles que buscam algum tipo de
cura. Atinge de 1 a 2 metros de altura, apresenta folhas aveludadas e
produz flores azuladas.
Indicações: ressaca alcoólica, bom
funcionamento do fígado, estimular a secreção biliar, aliviar os sintomas da
gripe, diarréia, cólicas, icterícia, abrir o apetite
Propriedades: tônica, eupéptica,
hepática, colagoga, colerética, calmante, carminativa, anti-reumática,
estomáquica
Partes
usadas: Folhas
Alecrim
Provoca suor, é
depurativo do sangue, tônico para o coração e anti-reumático. É usado para
banhos de pele e do cabelo e para caspa. Também utilizado como tempero na
culinária tradicional brasileira.
Indicações: Reumatismo, depressão,
cansaço, gases intestinais, debilidade cardíaca, inapetência, cicatrização de
feridas.
Propriedades: Estimulante,
anti-espasmódico, vasodilatador, anti-séptico e digestivo.
Partes
usadas: Flores
e folhas
Erva Doce
A erva-doce é uma
planta medicinal, também conhecida como Anis ou Funcho, muito utilizada no
combate de doenças, como dispepsia, dor de barriga ou artrite. O seu nome
científico é Pimpinella anisum e pode ser comprada em
mercados, feiras livres, lojas de produtos naturais e farmácias de manipulação.
Indicações: A erva-doce serve para tratar dor de barriga, indigestão, inchaço, acidez estomacal, asma, bronquite, espasmos, cólicas, dor de barriga, dor de cabeça, inflamações, tosse, gases, má digestão, palpitações, inchaço, gripe, resfriado, catarro e coriza.'
Indicações: A erva-doce serve para tratar dor de barriga, indigestão, inchaço, acidez estomacal, asma, bronquite, espasmos, cólicas, dor de barriga, dor de cabeça, inflamações, tosse, gases, má digestão, palpitações, inchaço, gripe, resfriado, catarro e coriza.'
Propriedades: As propriedades da erva-doce
incluem sua ação expectorante, tônica, cicatrizante, calmante, diurética,
sudorífica, galactagoga, antiespasmódica e antidispéptica.
Para compreendermos a sua participação em nossas vidas e na dinâmica do mundo, escolhemos um folha, falamos sobre suas propriedades e importância pessoal, desenhamos seu formato em uma árvore alternativa, e realizamos uma série de movimentos que lembrassem o seu.
O objetivo dessa aula, além de promover uma situação atípica para os alunos, foi
proporcionar o entendimento acerca da importância de cada componente para o meio em que se insere.
Isso gerou um estímulo a conexão com esse integrante tão benéfico, com o qual nos deparamos diariamente (e felizmente!) em nosso campus. E que, especialmente depois desse processo de aprendizagem, deve ser visto e utilizado com respeito.
Isso gerou um estímulo a conexão com esse integrante tão benéfico, com o qual nos deparamos diariamente (e felizmente!) em nosso campus. E que, especialmente depois desse processo de aprendizagem, deve ser visto e utilizado com respeito.
Fontes:
http://www.tuasaude.com/erva-doce/
http://www.saudemelhor.com/principais-plantas-medicinais-brasileiras/
domingo, 16 de novembro de 2014
As Águas
Recolhemos, em uma garrafa
transparente, as águas vivas de um local que nos fosse pessoalmente importante.
Pesquisamos de onde vinha, por onde ia, quem a habita e à quem traz vida.
Desenhamos, por fim, as cartas da bacia hidrográfica da qual essas águas fazem
parte.
"Água de beber
Bica no quintal, sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o
tempo parava
Tinha sabiá, tinha
laranjeira, tinha manga rosa
Tinha o sol da manhã
E na despedida,
tios na varanda, jipe
na estrada
E o coração lá."
(Milton Nascimento - Fazenda)
As águas vivas que escolhi são as
do rio Casca, que passa pelo município de Jaguaquara, cidade onde vivi parte do
que Milton Nascimento canta no trecho acima. O rio Casca nasce no
povoado do Alto da Serra, e é um afluente do rio Jiquiriçá. Esse rio foi de
muita importância para a cultura local, pois o próprio surgimento da cidade de
Jaguaquara deve-se a existência desse manancial, que outrora corria límpido e
sorrateiro pela fazenda Toca da Onça (antigo nome do município). Porém, a ausência de saneamento
básico em ruas da cidade, especialmente no bairro Casca, teve como consequência
o despejo dos esgotos residenciais no rio, de modo que este chega a cidade de
Itaquara em condições extremas de mau cheiro e poluição. Em 2011, a prefeitura promoveu a
retirada do lixo com retroescavadeiras, juntamente com uma campanha de conscientização
para os moradores ribeirinhos. Além disso, no ano de 2012 o governo investiu em
um sistema de esgotamento sanitário, que teve sua operação iniciada em Julho do
mesmo ano.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Da cor da terra
Foi proposto que cada educando
levasse, em uma caixa, uma porção de terra que lhe fosse pessoalmente
importante. O resultado, após a apresentação de cada amostra, foi um conjunto
diferente de terras e relatos, alicerçando a construção individual e coletiva
de todos os personagens da história que a UFSB começa a escrever.
"Onde
a vista alcançar
Todo e
qualquer caminho pra percorrer e chegar
Chão!"
(Lenine
- Chão)
![]() |
| Junção de todas as terras levadas pelos alunos |
Por "nossos territórios" ter sido a ideia central do primeiro quadrimestre, discutimos sobre as
diversas interações entre pessoas e territórios, as doenças, culturas, crenças
oriundas de cada localidade, e a arte que pode ser reproduzida ou composta pela
terra.
Ao final do compartilhamento de
memórias e saberes, pude pensar no chão para além de um caminho, pensar nele
como um bem. E, ao fazer isso, devo
também me dispor a cuidar da inquieta, fértil, movediça, ou arenosa base para a
construção do mundo de ideias em que vivo. Essa experiência, portanto, me fez
lembrar que, apesar de serem infinitas as possibilidades de rotas a se traçar, o
destino só vai fazer sentido, se a cada passo eu estiver atenta a importância do que me foi princípio, firmeza e sustento.
“Que a
força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a
viagem”
Assinar:
Postagens (Atom)





