Evelyn Glennie: How to truly listen
"O conceito de Paisagem Sonora
(soundscape, no original) diz que "paisagem sonora é um som ou uma
combinação de sons que vem ou surge de um ambiente imersivo¹." O termo soundscape foi
cunhado pelo compositor e ambientalista canadense R. Murray Schafer, que em seu
livro The Tuning Of The World, de 1977 (publicado no Brasil em 1997 pela
Editora Unesp com o título A Afinação do Mundo), indica três elementos
principais na paisagem sonora: sons fundamentais, sinais e marcas sonoras.
Estes três elementos são definidos por Schafer da seguinte forma:
Os sons
fundamentais de uma paisagem são os sons criados por sua geografia e clima:
água, vento, planícies, pássaros, insetos e animais. Muitos desses sons podem
encerrar um significado arquétipo, isto é, podem ter-se imprimido tão
profundamente nas pessoas que os ouvem que a vida sem eles seria sentida como
um claro empobrecimento. Podem mesmo afetar o comportamento e o estilo de vida
de uma sociedade. Os sinais são sons destacados, ouvidos conscientemente.
Qualquer som pode ser ouvido conscientemente e, desse modo, qualquer som pode
tornar-se uma figura ou sinal. Não raro os sinais sonoros podem ser organizados
dentro de códigos bastante elaborados, que permitem mensagens de considerável
complexidade a serem transmitidas àqueles que podem interpretá-las. É o caso,
por exemplo, da cor de chasse (trompa de caça), ou dos apitos de trem
ou navio. O termo marca sonora deriva de marco e se refere a um som da
comunidade que seja único ou que possua determinadas qualidades que o tornem
especialmente significativo ou notado pelo povo daquele lugar. Uma vez
identificada a marca sonora, é necessário protegê-la porquê as marcas sonoras
tornam única a vida acústica da comunidade.”
Devido a um ‘novo’ mundo de sons, ruídos e
silêncios, outras atitudes de escuta se constituem, lançando compositores e
ouvintes em encontros inusitados. Objetivando um entendimento acerca deste
mundo, foram solicitadas uma série de atividades, envolvendo desde a captação
de sons ambientes, à reflexão da nossa relação com os ruídos que nos cercam.
Além disso, pudemos fazer parte de um momento de composição musical, em que reunimos
a musicalidade emitida por animais de nossa escolha, e montamos um coro.
Essa
proposta, cuja relevância, a princípio, não nos pareceu muito clara, se mostrou
um interessante exercício de nossa percepção diante de uma paisagem que se
compõe de forma sutil. Mas que, por nem sempre sabermos utilizá-la, se torna
hostil, e gera diversos transtornos que contribuem para a intolerância, a
irritabilidade e outros males provenientes do contato diário com níveis altos
de decibéis.
Portanto,
ao discutirmos tal paisagem em todos os seus aspectos, podemos desenvolver
maneiras mais funcionais de apreciação da variada “natureza sonora” que nos
cerca, bem como desconstruir pensamentos ultrapassados, que classificam a
produção de sons como algo estritamente ligado à capacidade de escutá-los.
Quando, na verdade, e à exemplo das composições de Evelyn Gleenie (artista com
deficiência auditiva), a musicalidade está diretamente ligada ao modo sensível
com o qual tocamos o mundo.
Fontes: http://migre.me/cmQeY
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