segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Paisagem sonora

Evelyn Glennie: How to truly listen

"O conceito de Paisagem Sonora (soundscape, no original) diz que "paisagem sonora é um som ou uma combinação de sons que vem ou surge de um ambiente imersivo¹." O termo soundscape foi cunhado pelo compositor e ambientalista canadense R. Murray Schafer, que em seu livro The Tuning Of The World, de 1977 (publicado no Brasil em 1997 pela Editora Unesp com o título A Afinação do Mundo), indica três elementos principais na paisagem sonora: sons fundamentais, sinais e marcas sonoras. Estes três elementos são definidos por Schafer da seguinte forma: 

Os sons fundamentais de uma paisagem são os sons criados por sua geografia e clima: água, vento, planícies, pássaros, insetos e animais. Muitos desses sons podem encerrar um significado arquétipo, isto é, podem ter-se imprimido tão profundamente nas pessoas que os ouvem que a vida sem eles seria sentida como um claro empobrecimento. Podem mesmo afetar o comportamento e o estilo de vida de uma sociedade. Os sinais são sons destacados, ouvidos conscientemente. Qualquer som pode ser ouvido conscientemente e, desse modo, qualquer som pode tornar-se uma figura ou sinal. Não raro os sinais sonoros podem ser organizados dentro de códigos bastante elaborados, que permitem mensagens de considerável complexidade a serem transmitidas àqueles que podem interpretá-las. É o caso, por exemplo, da cor de chasse (trompa de caça), ou dos apitos de trem ou navio. O termo marca sonora deriva de marco e se refere a um som da comunidade que seja único ou que possua determinadas qualidades que o tornem especialmente significativo ou notado pelo povo daquele lugar. Uma vez identificada a marca sonora, é necessário protegê-la porquê as marcas sonoras tornam única a vida acústica da comunidade.”
Devido a um ‘novo’ mundo de sons, ruídos e silêncios, outras atitudes de escuta se constituem, lançando compositores e ouvintes em encontros inusitados. Objetivando um entendimento acerca deste mundo, foram solicitadas uma série de atividades, envolvendo desde a captação de sons ambientes, à reflexão da nossa relação com os ruídos que nos cercam. Além disso, pudemos fazer parte de um momento de composição musical, em que reunimos a musicalidade emitida por animais de nossa escolha, e montamos um coro.
Essa proposta, cuja relevância, a princípio, não nos pareceu muito clara, se mostrou um interessante exercício de nossa percepção diante de uma paisagem que se compõe de forma sutil. Mas que, por nem sempre sabermos utilizá-la, se torna hostil, e gera diversos transtornos que contribuem para a intolerância, a irritabilidade e outros males provenientes do contato diário com níveis altos de decibéis.
Portanto, ao discutirmos tal paisagem em todos os seus aspectos, podemos desenvolver maneiras mais funcionais de apreciação da variada “natureza sonora” que nos cerca, bem como desconstruir pensamentos ultrapassados, que classificam a produção de sons como algo estritamente ligado à capacidade de escutá-los. Quando, na verdade, e à exemplo das composições de Evelyn Gleenie (artista com deficiência auditiva), a musicalidade está diretamente ligada ao modo sensível com o qual tocamos o mundo.

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