domingo, 7 de dezembro de 2014

Nossa cara

Para encerrar o quadrimestre, foi montada uma bandeira reunindo todas as particularidades do grupo. O resultado foi uma arte muito especial, feita por Emille Rezende, e um texto lindíssimo produzido por Alexandre Fernandes.



"Em tempos de “crise de representação” e “crise do sujeito”, perguntaríamos: o que representa o sujeito? Qual a sua bandeira? 
Todo o movimento de junho de 2013 ainda ecoa: o que querem os manifestantes? Quais seus interesses? Quem são eles? Quais suas cores? Qual sua bandeira?
Bandeiras representam o sujeito. Sempre no plural, portanto, bandeiras. Sujeitos plurais como a diversidade. Sujeitos e bandeiras, com um temível “s” disseminante. Sujeitos dentro de sujeitos. Bandeiras dentro de bandeiras. Como Minas, ora. Muitas há dentro das gerais, como rios dentro do mar na noite veloz. 
Plurais na diferença, nunca se fixam. Movimentam-se. Sua ordem não é estática. São performáticos/as. Para frente e para trás, para os lados, para cima e para baixo. Haja vento, haja mar, haja onda. 
Nem tanto para frente, nem para trás, nem para o lado de um Pai a quem deva retornar. Nada de origem nem metafísicas que rejeitem o inebriante infinito e agonia da aporia: de onde veio, para onde vai? 
Longe de Karl Marx, próximas de Stuart Hall, bandeiras balançam aos ventos da alteridade: somos estudantes e trabalhadores. Mas também burgueses. Mulheres e homens. Héteros e negros. Homoafetivos e negros. Negras e brancas. Brancos e indígenas e não-brancos e amantes da natureza. Policiais e estudantes. Estudantes policiais e estudantes detidos pela polícia durante manifestações em Santa Cruz Cabrália porque empunhavam a bandeira do passe livre. Mas, não, não é só por 0,20 centavos. Bandeiras tremulando ao vento e logo se vê: somos mais. Somados somos mais e a conta não se resolve na linearidade matemática nem no raciocínio lógico computacional binário. 
Há comandos capazes de conter bandeiras e sujeitos? “Bugs” se dão aos montes tanto quanto sujeitos e bandeiras evocam estudantes (e) apaixonados pelo mar, pelas tartarugas, pelas ondas. Ondas do feminismo, ondas de Iemanjá e de Netuno, ondas de lutas contra a fome, contra a miséria e toda a forma de exclusão. 
Onda, espiral, flor de lótus, águia, tartaruga, cores, muitas cores: símbolos. Símbolos movimentam regras. Eis o paradoxo. Símbolos “movimentam” “regras”. Todo paradoxo não é um bug? 
Símbolos instituem regras, trocas sociais, perfis. Símbolos, perfis, faces e books. Estão lá os símbolos e os “selfs”. Falam de nós, falam conosco, falam por nós, do nosso tempo, da nossa passagem, da viagem pelo tempo. 
O tempo e o relógio. O tempo e o vento e as bandeiras. Que nos contam? “O tempo anda passando a mão em mim”, diria Viviane Mosé. Tempo é um senhor tão bonito... 
Oração ao Tempo. Resposta ao Tempo. Tic, tac. “Batidas na porta da frente é o tempo, eu bebo um pouquinho pra ter argumento, mas fico sem jeito, calado, ele ri, ele zomba do quanto eu chorei, porque sabe passar e eu não sei”. Queremos ficar, permanecer, eternos como Aquiles. Fazemos bandeiras, lutamos, vivemos, morremos.
O Tempo é o entre-lugar. Está e não está. É e não o é. Um breve sinal entre o Nada. Nada/Vida/Nada. O mais são bandeiras e sujeitos que fazem a existência: Cristo, Buda, Gandhi, Madre Teresa, Oxum, Luther King. Fazem história (e direito, e biologia marinha, e artes, e medicina, e religião, e), produzem símbolos. 
Símbolos são textos. Marcas. Marcam o corpo. Estão no corpo “feito tatuagem pra nos dar coragem quando a noite vem”. Uma tartaruga, uma borboleta, uma rosa, um coração. Em sânscrito, em nagô, em brasileiro, num brasileiro. Tatoos, tartarugas, ondas e borboletas numa brasileira linda de Caraíva ou na negra alta e magra de Coroa Vermelha a dizer em alto e bom som: não economize na tinta, sou negra. 
Símbolos dão continuidade a um grupo. Imantam, unem, congregam. Unem na diversidade. O símbolo é a inteireza da diversidade: a unimultiplicidade. Zelar por símbolos (inclusive o de outros grupos) é ética que cuida da vida, das pessoas, dos seus interesses, de suas tradições. A bandeira de todo grupo deveria ser zelar pelos seus símbolos e proteger o dos outros grupos. 
O símbolo é, pois, uma “filosofia”. Metáfora que responde perguntando. Nunca se esgota. Responde e mantém a pergunta. Inter-age. Devagar como o caracol sobe nas árvores, faz seu caminho. E lá chega. Onde? No infinito. Devagar como a tartaruga, movimenta-se, encanta. Como a águia, voa rápido e alto. Será o condor de Castro Alves, tão admirado por Jorge Amado? Nunca se saberá ao certo porque na fusão de cores, a lógica se perde, se confunde e balança, trêmula e tremula como toda a bandeira. Resposta à pergunta, “quem são vocês?”: a bandeira."

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Novas formas de sentir o mundo

Somos conscientes da necessidade de mudanças, porém, ao nos atentarmos constantemente aos nossos anseios efêmeros, perdemos a sensibilidade de entender que o conserto para as falhas existentes no mundo também mudam. Por isso nos sentimos tão desconfortáveis e injustiçados diante de um novo sistema que requer um pensamento aberto, e um posicionamento capaz de lidar com novas propostas. Tememos não nos reconhecer durante o processo de modificação, ou perdermos os holofotes que nos cegam, e nos levam a acreditar que o problema não é tão nosso. É como se estivéssemos resistindo ao recurso que temos para protagonizar o crescimento conjunto da sociedade. Assim, experiências envolvendo o sensível comumente nos levam além de nossas zonas de conforto. Perceber o mundo de maneira diferente mexe com ideias objetivas que já foram reproduzidas tantas vezes, a ponto de beirarmos acreditar que sempre foram nossas.  Por isso, o aproveitamento da interdisciplinaridade  desse componente tão inovador, requer uma rendição a possibilidade de se identificar com formas inusitadas de expressão e conhecimento. Tem sido, acima das críticas existentes, interessante desaprender conceitos para moldar saberes. E acredito que com o aprimoramento (e reconhecimento) da função desse novo espaço de discussão que nos é oferecido, nosso campo de visão se alargará tanto quanto o nosso potencial de reinventar a composição ultrapassada do nosso cenário social.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Paisagem sonora

Evelyn Glennie: How to truly listen

"O conceito de Paisagem Sonora (soundscape, no original) diz que "paisagem sonora é um som ou uma combinação de sons que vem ou surge de um ambiente imersivo¹." O termo soundscape foi cunhado pelo compositor e ambientalista canadense R. Murray Schafer, que em seu livro The Tuning Of The World, de 1977 (publicado no Brasil em 1997 pela Editora Unesp com o título A Afinação do Mundo), indica três elementos principais na paisagem sonora: sons fundamentais, sinais e marcas sonoras. Estes três elementos são definidos por Schafer da seguinte forma: 

Os sons fundamentais de uma paisagem são os sons criados por sua geografia e clima: água, vento, planícies, pássaros, insetos e animais. Muitos desses sons podem encerrar um significado arquétipo, isto é, podem ter-se imprimido tão profundamente nas pessoas que os ouvem que a vida sem eles seria sentida como um claro empobrecimento. Podem mesmo afetar o comportamento e o estilo de vida de uma sociedade. Os sinais são sons destacados, ouvidos conscientemente. Qualquer som pode ser ouvido conscientemente e, desse modo, qualquer som pode tornar-se uma figura ou sinal. Não raro os sinais sonoros podem ser organizados dentro de códigos bastante elaborados, que permitem mensagens de considerável complexidade a serem transmitidas àqueles que podem interpretá-las. É o caso, por exemplo, da cor de chasse (trompa de caça), ou dos apitos de trem ou navio. O termo marca sonora deriva de marco e se refere a um som da comunidade que seja único ou que possua determinadas qualidades que o tornem especialmente significativo ou notado pelo povo daquele lugar. Uma vez identificada a marca sonora, é necessário protegê-la porquê as marcas sonoras tornam única a vida acústica da comunidade.”
Devido a um ‘novo’ mundo de sons, ruídos e silêncios, outras atitudes de escuta se constituem, lançando compositores e ouvintes em encontros inusitados. Objetivando um entendimento acerca deste mundo, foram solicitadas uma série de atividades, envolvendo desde a captação de sons ambientes, à reflexão da nossa relação com os ruídos que nos cercam. Além disso, pudemos fazer parte de um momento de composição musical, em que reunimos a musicalidade emitida por animais de nossa escolha, e montamos um coro.
Essa proposta, cuja relevância, a princípio, não nos pareceu muito clara, se mostrou um interessante exercício de nossa percepção diante de uma paisagem que se compõe de forma sutil. Mas que, por nem sempre sabermos utilizá-la, se torna hostil, e gera diversos transtornos que contribuem para a intolerância, a irritabilidade e outros males provenientes do contato diário com níveis altos de decibéis.
Portanto, ao discutirmos tal paisagem em todos os seus aspectos, podemos desenvolver maneiras mais funcionais de apreciação da variada “natureza sonora” que nos cerca, bem como desconstruir pensamentos ultrapassados, que classificam a produção de sons como algo estritamente ligado à capacidade de escutá-los. Quando, na verdade, e à exemplo das composições de Evelyn Gleenie (artista com deficiência auditiva), a musicalidade está diretamente ligada ao modo sensível com o qual tocamos o mundo.

domingo, 23 de novembro de 2014

Folhas ao vento

"De repente um milagre, uma surpresa

Cai a chuva benéfica e divina

Quem lhe diz, quem lhe mostra, quem lhe ensina?

Só pode ser o autor da natureza
Quem pensar destruir-lhe a fortaleza

Perderá de uma vez toda a esperança

(...)

A planta firmada no junquilho
Begônia, tulipa, margarida

(...)
As flores gentis com seus narcóticos

As ervas que dão antibióticos

A mudança constante da maré"

(Natureza - Xangai)

As folhas, além das propriedades biológicas que possuem, carregam consigo a associação à um local, um efeito curativo, ou sensação provocada. 

No que tange seu efeito medicinal, três podem ser mencionadas:

Boldo
Tem um gosto muito forte e amargo, que pode afastar aqueles que buscam algum tipo de cura. Atinge de 1 a 2 metros de altura, apresenta folhas aveludadas e produz flores azuladas.
Indicações: ressaca alcoólica, bom funcionamento do fígado, estimular a secreção biliar, aliviar os sintomas da gripe, diarréia, cólicas, icterícia, abrir o apetite
Propriedades: tônica, eupéptica, hepática, colagoga, colerética, calmante, carminativa, anti-reumática, estomáquica
Partes usadas: Folhas

Alecrim
Provoca suor, é depurativo do sangue, tônico para o coração e anti-reumático. É usado para banhos de pele e do cabelo e para caspa. Também utilizado como tempero na culinária tradicional brasileira.
Indicações: Reumatismo, depressão, cansaço, gases intestinais, debilidade cardíaca, inapetência, cicatrização de feridas.
Propriedades: Estimulante, anti-espasmódico, vasodilatador, anti-séptico e digestivo.
Partes usadas: Flores e folhas

Erva Doce
A erva-doce é uma planta medicinal, também conhecida como Anis ou Funcho, muito utilizada no combate de doenças, como dispepsia, dor de barriga ou artrite. O seu nome científico é Pimpinella anisum e pode ser comprada em mercados, feiras livres, lojas de produtos naturais e farmácias de manipulação.
Indicações: A erva-doce serve para tratar dor de barriga, indigestão, inchaço, acidez estomacal, asma, bronquite, espasmos, cólicas, dor de barriga, dor de cabeça, inflamações, tosse, gases, má digestão, palpitações, inchaço, gripe, resfriado, catarro e coriza.'
Propriedades: As propriedades da erva-doce incluem sua ação expectorante, tônica, cicatrizante, calmante, diurética, sudorífica, galactagoga, antiespasmódica e antidispéptica.


Para compreendermos a sua participação em nossas vidas e na dinâmica do mundo, escolhemos um folha, falamos sobre suas propriedades e importância pessoal, desenhamos seu formato em uma árvore alternativa, e realizamos uma série de movimentos que lembrassem o seu. O objetivo dessa aula, além de promover uma situação atípica para os alunos, foi proporcionar o entendimento acerca da importância de cada componente para o meio em que se insere.

Isso gerou um estímulo a conexão com esse integrante tão benéfico, com o qual nos deparamos diariamente (e felizmente!) em nosso campus. E que, especialmente depois desse processo de aprendizagem, deve ser visto e utilizado com respeito.

Fontes:

http://www.tuasaude.com/erva-doce/
http://www.saudemelhor.com/principais-plantas-medicinais-brasileiras/

domingo, 16 de novembro de 2014

As Águas

Recolhemos, em uma garrafa transparente, as águas vivas de um local que nos fosse pessoalmente importante. Pesquisamos de onde vinha, por onde ia, quem a habita e à quem traz vida. Desenhamos, por fim, as cartas da bacia hidrográfica da qual essas águas fazem parte.

"Água de beber
Bica no quintal, sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
Tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga rosa
Tinha o sol da manhã
E na despedida,
tios na varanda, jipe na estrada
E o coração lá."

(Milton Nascimento - Fazenda)



As águas vivas que escolhi são as do rio Casca, que passa pelo município de Jaguaquara, cidade onde vivi parte do que Milton Nascimento canta no trecho acima. O rio Casca nasce no povoado do Alto da Serra, e é um afluente do rio Jiquiriçá. Esse rio foi de muita importância para a cultura local, pois o próprio surgimento da cidade de Jaguaquara deve-se a existência desse manancial, que outrora corria límpido e sorrateiro pela fazenda Toca da Onça (antigo nome do município). Porém, a ausência de saneamento básico em ruas da cidade, especialmente no bairro Casca, teve como consequência o despejo dos esgotos residenciais no rio, de modo que este chega a cidade de Itaquara em condições extremas de mau cheiro e poluição. Em 2011, a prefeitura promoveu a retirada do lixo com retroescavadeiras, juntamente com uma campanha de conscientização para os moradores ribeirinhos. Além disso, no ano de 2012 o governo investiu em um sistema de esgotamento sanitário, que teve sua operação iniciada em Julho do mesmo ano.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Da cor da terra

Foi proposto que cada educando levasse, em uma caixa, uma porção de terra que lhe fosse pessoalmente importante. O resultado, após a apresentação de cada amostra, foi um conjunto diferente de terras e relatos, alicerçando a construção individual e coletiva de todos os personagens da história que a UFSB começa a escrever. 

"Onde a vista alcançar
Todo e qualquer caminho pra percorrer e chegar
Chão!"

(Lenine - Chão)

Junção de todas as terras levadas pelos alunos


Por "nossos territórios" ter sido a ideia central do primeiro quadrimestre, discutimos sobre as diversas interações entre pessoas e territórios, as doenças, culturas, crenças oriundas de cada localidade, e a arte que pode ser reproduzida ou composta pela terra. 

Ao final do compartilhamento de memórias e saberes, pude pensar no chão para além de um caminho, pensar nele como um bem.  E, ao fazer isso, devo também me dispor a cuidar da inquieta, fértil, movediça, ou arenosa base para a construção do mundo de ideias em que vivo. Essa experiência, portanto, me fez lembrar que, apesar de serem infinitas as possibilidades de rotas a se traçar, o destino só vai fazer sentido, se a cada passo eu estiver atenta a importância do que me foi princípio, firmeza e sustento.

Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem”